Sofia não me saia do pensamento. Eu revia, a todo o instante a sua imagem, recordando, continuadamente, os seus olhos cor do céu. Aprendera a ler neles os seus pensamentos desde o primeiro momento em que a conheci. – O seu corpo franzino, a sua expressão dócil num rosto cheio de ternura, tocaram a minha sensibilidade. Eu descobri que estava ali o tesouro que há muito procurava.
Depois, foi esperar que o espectáculo do circo acabasse, para inventar um sistema que me permitisse falar com ela. Nesse primeiro momento também verifiquei que Sofia não era uma estrela de circo, o seu papel durante o espectáculo era: carregar, rapidamente, os utensílios, deixados pelos artistas na pista, para o interior, afim de não quebrar a sequência do espectáculo. Eu nesses momentos acompanhei todo o seu trabalho, e verifiquei a sua modéstia, em contraste com os artistas que recebiam palmas depois da execução dos seus números. Eles mostravam o seu orgulho pela forma artística como os interpretaram.
Ao contrário daquilo que imaginei, ela não saiu do circo para ver a feira, como fizeram os seus colegas. Contudo não desisti do meu intento. E na manhã do segundo dia da feira, muito cedo, eu comecei a rondar o circo. A minha intuição dizia-me que a veria sair.
Não esperei muito, e via-a acompanhada por uma mulher, que não foi difícil perceber ser a mãe. Também se notava que iam às compras, pois levavam sacos diversos.
Foram dois dias de ansiedade para conquistar Sofia. Era notório que ela tinha medo de amar alguém. Contudo, esse era o único obstáculo que eu tinha de vencer, porque a mãe e o padrasto não opuseram obstáculos ao meu pedido da mão dela. Pois, Sofia era filha da senhora, e enteada do seu segundo marido que depois vieram a ser pais dos seus quatro irmãos; somando assim, sete bocas para alimentar com os poucos rendimentos obtidos. Logo, era uma felicidade se Sofia saísse de casa. Ela que até nem fora feliz quando a obrigaram a fazer um número de circo com os seus irmãos. Pois tudo redundou num fracasso. Ficando assim reduzida aos trabalhos da cozinha e auxiliar de pista.
Depois de ter acompanhado o circo na sua deslocação por diversas feiras, Sofia aprendeu a confiar em mim. Então só havia mais um passo dar: tratar da pequena cerimónia do casamento.
Hoje, era um dia feliz para mim e Sofia. Quando sai de casa olhei para todos os recantos para verificar que estava tudo em ordem, afim de receber a dona daquele lar.
Na cavalariça enquanto selava o Castanho mandei-o sossegar. Pois ele estava contente, porque sabia que aquele ritual era para sair.
A simples cerimónia de casamento favoreceu os nossos desejos de estarmos a sós para sempre. Sofia antes de sair da Igreja ajoelhou aos pés de Santa Clara e rezou. Não a vi sorrir. Depois, perguntei-lhe porquê.
- Querido agradeci o milagre que sempre sonhei – Sofia olhou-me demoradamente e eu senti a sua felicidade pelo bater do seu coração. Depois com um demorado olhar despediu-se de Santa Clara.
Quando saímos da Igreja ouvimos algumas pessoas dizer: - É a noiva do circo.
A caminho de casa, o Sol envolveu-nos com a sua luz doirada e o Castanho transportava-nos caminhando suavemente, parecia querer dar-nos tempo para sentirmos o ambiente que nos rodeava. A pouco e pouco os ruídos da feira foram ficando para trás, e os braços de Sofia cingiam a minha cintura com mais força. E ouvi as suas palavras expressando a sua felicidade com um hino à Natureza. Senti dentro de mim uma enorme emoção, pois reparei que ela era uma poetisa. Mandei parar o Castanho, porque avistara a nossa casinha e apontando na sua direcção disse a Sofia que aquela era a nossa morada. Então, pensei antecipar a cerimónia de entrada no nosso lar, contemplando o cenário que o rodeava. 
Já no chão, ajudei Sofia a descer do cavalo. Depois de um prolongado beijo, olhamos a pequena cidade que morava lá em baixo, junto ao rio. Este deixava sair das suas águas o fino nevoeiro colorido pelas cores do Arco-Íris, e subia a colina na nossa direcção. A minha poetisa descreveu todo aquele cenário de forma tão mística que me senti invadido por um encantamento enorme. Os nossos corpos tocaram-se e ali ficamos com
a imagem daquele Universo pulsando dentro de nós.
Mais uma postagem com um texto de minha autoria e que escrevi num momento de forte inspiração.




















a boca para falar, mas Teodora adivinhou-lhe os pensamentos e disse-lhe que a partir daquele momento ela tinha que assumir-se como mulher – bem ou mal – e como sua sucessora se ela não regressasse. E aceitar Daniel como o seu protector e marido.
que era sua irmã, e era ela que tinha direito ao Ducado de Verona. 





Chegado à entrada da ponte sobre o rio Ádige, viu as pessoas, pacientemente, caminhando atrás de carros carregados de materiais – formavam fila sobre a ponte até ao outro lado do rio. Deu prioridade aos que iam carregados e depois, muito lentamente, caminhou atrás deles – ele sabia que lhe faltavam poucos metros para chegar a casa de Rossana – dentro do seu peito não se instalara, ainda, o ódio recomendado pelo pai. Ele sentia que tinha de dar muito amor a Rossana, pois imaginava como deveria estar o seu estado de espírito. Ela que chegou a Verona ainda criança, nunca compreendeu as grandes rivalidades que existiam entre as Repúblicas italianas. – Rossana era filha de banqueiros egípcios, que se instalaram em Verona por agraciamento de Teodora que, também, se valera deles para conquistar os seus direitos de sucessão…
Os dois guardas reconheceram Ottávio e abriram o pesado portão. Ele cumprimentou-os, em seguida desmontou do cavalo e caminhou pela alameda rodeada de grandes árvores e canteiros de flores. 








